Feito crianças na proximidade de uma surpresa, pulamos cedo da cama, eu e amado Alessandro dos Anjos, tomamos um café no hotel, um bom chá de coca e nos movemos ansiosos no sentido da antiga trilha inca, para chegar caminhando à misteriosa cidade de Machu Picchu.

O ponto de partida para a subida é o povoado de Águas Calientes, onde se chega de trem. Abrir mão do conforto dos ônibus que levam ao topo tem mais do que a vantagem da economia. Permite ir fazendo pausas para contemplar o povoado que vai ficando pequeno, e identificar os primeiros sinais das ruínas, ao se aproximar do topo. No percurso, de cerca de 1h30, depende do ritmo, já vai surgindo aquela pergunta: por que os incas subiram tão alto para construir uma cidade? E a resposta só surge lá em cima.

O sol. Foi para prestar adoração à estrela central do nosso sistema que a cidade foi edificada, a 2.453 metros de altitude, no governo do imperador Inca Pachacuti, por volta do ano 1.450. A cidade, que teve cerca de 750 moradores, foi um centro religioso, político e administrativo do império Inca, encravada numa posição estratégica, num contexto geográfico considerado sagrado, pela conexão entre os Andes e a Amazônia.

Machu Picchu também está rodeada por montanhas e montes nevados, que eram consideradas deidades sagradas na visão andina. Um deles é o famoso Wayanapicchu, que também pode ser escalado, mas é preciso comprar um ticket extra, sendo liberada a entrada de apenas de 400 pessoas por dia. Lá em cima, decidimos ir para o outro lado, que tem passagem livre, em direção ao Intipunju, o Portal do Sol.

Riqueza arqueológica e mistério

O Portal do Sol é o verdadeiro ponto de entrada da cidade. Do ponto de acesso a Machu Picchu, leva cerca de uma hora extra de caminhada, em outra trilha até chegar lá. É pelo Portal do Sol que chegam os aventureiros que arriscam chegar à Machu Picchu caminhando e acampando por até cinco dias. Para quem tem medo de penhascos é uma boa prática de frio na barriga (hehe), e a visão da cidade e do Wayanapicchu, lá do outro lado, é recompensadora.

A cidade ficou ignorada por séculos, desde a morte do último imperador inca, Atahualpa, em 1533, até ser encontrada pelo professor americano Hiram Bingham, em 1911. Porém, folhetos turísticos do governo peruano admitem que o local estava abandonado, mas nunca esteve perdido porque era visitado por camponeses da região. O curioso é que foi necessária uma expedição conduzida por Bingham, com apoio da National Geographic Society, em 1912, para trazer à tona sua riqueza arqueológica, com escavações e investigações.

Foi emocionante tocar nas pedras gigante, cuidadosamente cortadas. As que suportaram o tempo, terremotos e o desmanche provocado pelos espanhóis ainda exibem encaixes perfeitos, na composição de muros e paredes. Até agora, não há uma explicação definitiva de como cortavam as rochas. A mais razoável é de que faziam perfurações seguindo os veios. De qualquer modo, os incas venceram o desafio geográfico e aproveitaram de modo engenhoso o espaço no alto da montanha usando o granito disponível para as construções e moldar objetos.

Merecidamente, a cidade é Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade, desde a declaração da Unesco, em 1983. Recomendo totalmente a visita, para quem está disposto a ficar mudo de espanto com a paisagem. Nenhuma foto tinha conseguido me transmitir a grandiosidade do entorno e o tamanho da cidade. É algo incomparável.

A ganância e a discórdia familiar no império inca são explicações para a queda de um império que chegou a cerca de 10 a 12 milhões de pessoas, e que foi rendido pelos espanhóis. Outra versão é que foram ingênuos, curiosos, que se aproximaram dos forasteiros acreditando serem mensageiros divinos.

Excelentes surpresas em 8 dias

Lima

Festival Gastronômico Mistura, em Lima

Para chegar a Cusco, o voo faria conexão em Lima, pela Latam. Como era objetivo visitar o Festival Mistura, realizado em Lima, ficamos três dias na cidade. Foi espetacular conhecer o maior festival gastronômico da América Latina. Os tickets foram comprados na entrada, a 26 soles. A 10ª edição foi promovida no antigo bairro Rimac. Não é recomendado circular a pé no lado externo ao evento, o Clube de Tiro, por questão de segurança. Mas a chegada e saída do local, de táxi, foi tranquila e havia bastante policiamento.

Cusco

Considerada a Capital Arqueológica da América do Sul, rende passeios a pé e pelos pontos que formam o vale sagrado. Para visitar os locais, contratamos um tour que incluía o Museo de Sítio de Worikancha, Chinchero, Moray, Ollantaytambo e Pisac. O boleto incluindo estes e outros pontos custa 130 soles, é personalizado e válido por 10 dias. Tem uma opção de 70 soles com menos pontos turísticos, que teria sido a melhor opção pois não tivemos tempo de visitar tudo. Optamos por um tour que passava por Ollantaytambo, de onde pegamos o trem para Águas Calientes.

Ollantaytambo

Festa do aniversário de Ollantaytambo

É de onde parte o trem, em direção a Águas Calientes, pondo de partida para subir Machu Picchu. Muitos saem cedo de Cusco e fazem tudo numa correria. Nós optamos por dormir em Ollantaytambo, pegar o trem às 11 horas para Águas Calientes, dormir lá e sair cedo para subir Machu Picchu, voltando no fim do dia a Ollantaytambo, de onde regressamos de van a Cusco. Em Ollantaytambo está outra fortaleza inca, que chama atenção pelo sistema de irrigação que foi adaptado e, até hoje, faz a água correr pelo meio do povoado atual. Na noite da volta para Cusco, usamos uma das vans que aguardam na estação. Sinceramente, foi a única parte desagradável da viagem, pois o motorista dirigia com completa irresponsabilidade. O custo da van foi de 10 soles por pessoa.

Machu Picchu (Machupicchu)

Melhor época para visitar: de abril a outubro. De novembro a março começa a estação de nebulosidade e chuvosa. É preciso comprar o ticket de entrada com antecedência.

  • Ingresso Machu Picchu:  cerca de 160 soles por pessoa. Observar que há diferentes opções de ingressos e horários.
  • Museo de Sítio Manuel Chávez Ballón: fica numa rua próxima do início da trilha para subir a Machu Picchu, a 200 metros da “Puente Ruinas”. Mas preferimos visitá-lo no retorno. Como chegamos próximo de fechar, o atendente cobrou entrada de estudante, 8 soles por pessoa.

Hospedagem

Com os queridíssimos Maruja, Coco e outro hóspede, da Colômbia

A despesa média foi de R$ 90 por noite, tudo por Airbnb, exceto em Cusco, onde ficamos na casa da divertida Juanita, por indicação da amiga Kellyn, que estava fazendo intercâmbio por lá. Em Lima, ficamos em Jesus Maria, na casa da Maruja e do Coco, casal maravilhoso que foi super hospitaleiro. Depois, em Pueblo Libre, outro quarto ótimo, com qualidade de hotel, nos aguardava, com direito à carta de recomendações e dicas do Daniel Klopp. O Daniel, inclusive, desenvolve um trabalho social lindo no Peru, o Voices4Peru.

Tickets de trem

De Ollantaytambo para Águas Calientes (Machu Picchu), pela Inca Rail Peru. Os preços variam de 55 a 180 dólares.

Passagem aérea

Pela Latam Airlines, de Curitiba a São Paulo, com parada em Lima, o custo foi de R$ 1.700 por pessoa. Na compra de passagem, observar se é necessário troca de aeroporto em São Paulo.

Sugestões para provar

Picarones: lembra massa de sonho, mas é em formato de anel. Frito, é coberto por diferentes tipos de xarope doces. Acaba com a dieta, mas é gostoso (hehe).

Ceviche: outro prato tradicional da culinária peruana é feito com peixe cru, suco de limão e temperos. Em Lima, é oferecido por toda parte.

Cuy: é um porquinho da índia que preparam assado ou frito. É um prato exótico para estrangeiro, mas, por constar até na pintura da santa ceia, exposta no museu de Cusco, é normal para os locais. É bem típico em Cusco e é gostoso.

Inka Cola: refrigerante da Coca-Cola especialmente para o Peru.

Essencial

Chá de coca: não é brincadeira nem frescura o efeito da altitude! Imaginei que iria sentir os efeitos na subida a Machu Picchu, mas segundo explicações, o tal “soroche” (dor de cabeça, mal-estar no estômago, vômito, náusea, falta de ar, fadiga) surge acima de 2.500 metros. Em Cusco, a 3.400 metros, foi onde senti uma dor de cabeça tremenda, mesmo depois de curtir a cidade o dia inteiro. Dormi mal e acordei quase sem condições de fazer o tour pelo vale sagrado. Ainda bem que a primeira parada do passeio era numa propriedade rural, na qual serviram chá de coca misturado com uma outra erva. O efeito foi milagroso e me permitiu um dia espetacular. Ufa!

Resumo do roteiro

O Oceano Pacífico, em Barranco

Lima: Parque do Amor (permite o visual magnífico do Oceano Pacífico), Festival Gastronômico Mistura (Rimac), casarões antigos, bares e restaurantes (Barranco).

Cusco: Atrações do Vale Sagrado:

  • O sítio arqueológico de Moray é onde os incas desenvolviam experimentos de cultivo, com a variação de temperatura nas diferentes alturas de cada círculo de cultivo.
  • As salinas de Maras, um conjunto de piscinas de sal cultivadas desde a época inca, ou até mesmo antes dela. O mais curioso é a fonte de água salgada que brota da montanha e preenche os tanques. O sal vai se formando, ainda como em épocas remotas, na medida que a água evapora. É um cenário branco impressionante.
  • Dica de compras: os melhores preços foram em Cusco, no entorno da Plaza de Armas, onde há muitas feiras que se abrem atrás de pequenas portões.

Friozinho em Cusco, na Plaza de Armas

Costumes e cores

Os mais tradicionais ainda carregam, de bebês a compras ou utensílios a serem comercializados, em suas lindas mantas cheias de cores. As lhamas são um meio usado para os moradores receberem alguns trocados. O pedido é “propina” voluntária, ou seja, uma gorjeta por tirar foto com estas fofuras e seus donos.