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Viver o agora como se não houvesse amanhã. Superficialmente, esta pode parecer uma atitude inconsequente. Avaliando com calma, porém, viver o hoje como se fosse o último dia reflete sabedoria. Sempre é um susto quando, próximo de nós, a morte arrasta pessoas cheias de saúde e planos. Vem a dor da perda proclamar à consciência de que o amanhã é apenas um dia que pode nunca chegar.

Ficamos chocados com a morte, e, com a tristeza sentida, tentamos valorizar quem partiu. Chegam as lembranças daquilo que a pessoa viveu e compartilhou. Em retrospectiva, recordamos parte de seus passos, dos sonhos que tinham ou estavam envolvidos, e de outros que se preparavam para realizar.

Esta capacidade de analisar a vida e a morte do lado de fora parece nos colocar longe do ponto em que também vai se findar nossa própria existência neste mundo de ilusões. Mas pensar na morte pode nos ajudar a reverenciar e a honrar ainda mais a vida, e o agora. Esta projeção do que gostaríamos de fazer antes de partir daqui, na certeza que um dia voltaremos para casa, é algo que deveria nos guiar.

“Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos”

A cada espiadela no relógio os ponteiros avançam velozes consumindo os minutos dos 1440 que totalizam um dia. São tantos apontamentos na agenda, tanta cobrança por produtividade, por resultados que a sensação é do encolhimento do tempo. “Esse ano está passando rápido” é uma expressão corriqueira. Fica sempre a impressão de que não estamos conseguimos viver na intensidade suficiente. Não seria por estarmos tão ocupados e perturbados com frivolidades enquanto a vida passa?

O filósofo Sêneca, em suas cartas dirigidas a Paulino, e reunidas na prestigiosa obra Sobre a Brevidade da Vida, propõe sábias considerações para uma vida dignificante e ilimitada. Discordava que a vida fosse curta ou que sejamos privados dela. Mas a soberba convicção de que dominamos o amanhã nos dá a falsa ideia de que podemos devorar o dia de hoje imprudentemente.

“Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importante tarefas”, escreveu. Observamos a vida se diluir quando não conseguimos aplicar-lhe algum valor e realizar aquilo que realmente faz sentido para nós. A vida então não seria breve, mas nossa atitude pode torná-la pequena.

O que você faria se só te restasse este dia?

Do álbum Pensar é fazer música, de Paulinho Moska, a música O último dia pergunta: “Meu amor, o que você faria se só te restasse um dia?” Mesmo se fosse um dia com muitas razões para chorar, minha opção seria pelo riso, inclusive para rir ainda das tantas vezes que considerei ter suficientes motivos para cair em prantos. A ironia de olhar para os problemas passados é nos darmos conta de quanta energia foi gasta em vão. Nesta curta vida de aprendizado, ocupar o tempo que se desgasta a cada instante com discórdias e lutas vãs é esbanjar a vida e perdê-la.

“Ninguém permite que sua propriedade seja invadida, e, havendo discórdia quanto aos limites, por menor que seja, os homens pegam em pedras e armas. No entanto, permitem que outros invadam suas vidas de tal modo que eles próprios conduzem seus invasores a isso,” alerta o filósofo.

Quanto tempo perdemos castigando nosso corpo com doenças que nós mesmos abraçamos por preocupações imensas? E quanto tempo investimos em nossa própria evolução, autoconhecimento? Quanto tempo investimos num espírito tranquilo? Para Sêneca, muito da nossa existência é retirada pelos sofrimentos sem necessidade, tolos contentamentos, paixões ávidas, conversas inúteis.

O viver não pode ser adiado para um momento incerto

Olhar atentamente e levar em consideração a nós mesmos não seria um sinal de arrogância ou egoísmo, mas um apelo à responsável à vida mais importante que temos para zelar, antes de todas as demais: a nossa. Se imprudentemente nos perdemos em propósitos que não são os que prezamos acabamos adiando a vida para a incerteza.

Muitos planos vão ficando para os 50 anos, para quando ficarmos livres, os filhos crescerem, para o futuro. “Que certeza tens de que há uma vida tão longa? Não te envergonhas de destinar para ti somente resquícios de vida e reservar para a meditação apenas a idade que já não é produtiva?”, provoca Sêneca.

Valorizar a existência com equilíbrio e sabedoria

Lembrar do momento que a nossa passagem pelo planeta vai acabar tem aspectos importantes. Chama à um estado de alerta aos sentidos do presente. Para não perdermos nem mais um segundo nos transportando para trás, essencialmente, rememorando mágoas ou sustentando raivas.

Para Sêneca, a vida, se soubermos viver, é longa. “Mas a insaciável ganância domina um; outro, desperdiça sua energia em trabalhos supérfluos; (..) outro fica entorpecido pela inércia; um está sempre preocupado com a opinião alheia (..); há aqueles que, voluntariamente, se sujeitam à ingrata adulação dos superiores.”

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Invejar o destino alheio também é uma maneira de queimar os créditos da própria vida. Ou ainda, dedicado a projetos vazios, e não a propósitos que façam sentido para si próprios. Alertava que “alguns, sem terem dado rumo a suas vidas, são flagrados pelo destino esgotados e sonolentos”. Ao falar da importância do ócio, o escritor não convidava à preguiça nem a inércia, mas recomendava evitar a falsa operosidade e a fútil agitação.

Como você está enriquecendo os 1440 minutos que ganhou no dia de hoje? Sente-se vibrante de vida, ou apático? Nossa existência se prolonga se dela soubermos usufruir, dedicando tempo também ao cultivo da espiritualidade e da evolução pessoal.