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Querida Nay,

Espero que essa carta encontre você em dias felizes e de paz. Das coisas incríveis que a tecnologia proporciona, uma delas são os encontros. Muitas vezes, eles não são físicos, daqueles em que podemos tocar, abraçar, sentir o cheiro. Mas eles podem promover muita química, mesmo com a ausência de sentidos, porque envolvem uma reação em cadeia de outros sentimentos e percepções.

E foi assim que nos encontramos, em novembro de 2015. Eu estava em Budva, praia no litoral de Montenegro, e você tinha acabado de voltar de um mochilão de oito meses pela Argentina, Chile e Uruguai. E como todo espírito inquieto, já estava juntando grana para uma temporada em Londres. Para fazer aquilo que mais faz seus olhos brilharem.

Nesse encontro à distância que tivemos, percebi em você uma outra paixão além das viagens. Descobri que transmite amor por meio de palavras e conseguiu fazer dessa habilidade um projeto itinerante que te acompanha durante as viagens, o Cartas em Trânsito. Expressa amor em cartas. Sim, dessas escritas à mão e enviadas pelo correio. Um delicado sinal de resistência na caixa de correspondência, em meio a papéis com propagandas e códigos de barras.

Há algumas semanas, Nay, eu assisti a um vídeo sobre a arte perdida das cartas escritas. A palestrante Lakshmi Pratury contou que seu pai deixou um legado por escrito. Ele preenchia linhas e linhas com pensamentos sobre ela. Falava sobre seus pontos fracos e fortes, além de sugestões de como poderia melhorar, com muita gentileza.

“Após sua morte, percebi que ninguém mais escreve para mim. A arte de escrever à mão está desaparecendo. Sou a favor de enviar e-mails e pensar enquanto digito, mas por que abandonar hábitos antigos por novos? Por que não podemos fazer os dois? Há momentos em que gostaria de trocar todos aqueles anos em que eu estava ocupada demais para poder sentar e conversar com meu pai, trocá-los por um abraço. Mas é tarde demais. É nesse momento que pego suas cartas e as leio, e o papel que tocou sua mão está nas minhas, e sinto-me conectada a ele.”

Então, lembrei de quando mandei aquele e-mail dizendo que gostaria de receber uma carta e você me respondeu que escrever para desconhecidos era legal, mas nada como para quem a gente gosta. E dali em diante o calendário ficou preguiçoso. Estamos tão acostumados com as mensagens instantâneas de whatsapp, messenger, que esperar uma carta é um doloroso prazer de resgatar sentimentos e exercitar a paciência com o tempo, de que tudo tem seu momento. Eu sabia que iria demorar, principalmente porque você já estava em Londres e eu, no Brasil.

Após meses, a ansiedade virou euforia após uma ligação do porteiro do meu prédio.

– Carla, tem uma caixinha para ti aqui embaixo. Podes vir buscar?

E a alegria rapidamente foi-se embora ao perceber que a caixa estava vazia e com o aviso dos Correios de que a embalagem tinha sido avariada durante o transporte.

Além das doces palavras a serem lidas, eu queria poder tocar na luneta com a lente como um caleidoscópio de flores, o mimo que você comprou em Londres. Abri a caixa, e sem acreditar por alguns segundos fiquei mexendo e sacudindo para encontrar aquilo que em algum momento existiu por ali. É um sentimento muito diferente de “tive que formatar meu computador e perdi minhas mensagens, reenvie por favor o e-mail” e em alguns minutos as palavras retomam seu lugar.

A escritora Hannah Brencher conta que sua infância foi motivada pelas idas até a caixa de correios. Era assim que se comunicava com sua mãe enquanto estava no colégio. Já adulta, depois que mudou para Nova Iorque e foi golpeada pela depressão, resgatou o hábito de escrever o mesmo tipo de cartas que trocava com a mãe, só que para estranhos. Espalhava dúzias de rabiscos por toda a cidade, em cafés, livrarias, por todo lugar. Ela dividiu sua história em um blog e fez a promessa de escrever cartas para quem pedisse, sem perguntar nada. E os pedidos vieram aos montes.

Certo dia, no metrô, um homem ficou encarando-a com as caixas de cartas na mão, como se questionasse porque não usava a internet. E Hannah, silenciosamente, pensou:

Bom, senhor, não sou uma estrategista, nem uma especialista. Sou só uma contadora de histórias. E eu poderia te contar sobre uma mulher cujo marido acabou de voltar do Afeganistão, e ela está penando para ressuscitar essa coisa chamada conversa, então ela deixa cartas de amor pela casa como forma de dizer: “Volte pra mim. Me encontre quando puder.” (…) Ou o homem que decide que vai se matar, e ele usa o Facebook para dizer adeus aos amigos e família. Bom, hoje ele dorme tranquilo com uma pilha de cartas como essa, aconchegadas no seu travesseiro, escritas por estranhos que estiveram lá quando ele precisou.”

O fato é que a mesma mensagem escrita em uma carta pode ser enviada pela internet ou postada em um blog, como essa que faço agora. Mas, ao contemplar a caligrafia desalinhada, os rabiscos nos cantos da margem, o cheiro do papel viajado, temos a certeza de que aquilo não foi feito em meio ao caos das abas abertas do computador, aos bipes vindos do smartphone, mas de que cada letra foi desenhada e perpetuada no tempo.

Nay Girelli, a escritora de cartas (Foto: Marcella Haddad)

As palavras de uma carta são gestos de amor e seguem o ritmo de um coração que não pode estar ali, mas que encontra suas formas de mandar recado. Elas já não precisam mais provar sua eficiência enquanto forma de comunicação porque hoje já representam pura e simplesmente arte.

Há momentos em que fecho os olhos e imagino tudo que você teria dito, mas o desencontro não permitiu. Apenas penso que nem todos os encontros precisam acontecer para que se concretizem. Aquela caixa vazia trouxe uma mensagem que jamais poderá ser lida, mesmo que tenhas se prontificado a reescrevê-la. O fato em si ensinou-me muito mais sobre amor, paciência, resiliência e coragem. Porque é isso que você demonstra na carta que tem escrito, inconscientemente, sobre você mesma. A sua própria história, de uma mulher de espírito verdadeiro. Muito amor e coragem para você, agora aí em Israel.