Entre uma dança e outra no palco surpreendente da vida, acreditamos, naturalmente, em dias melhores. A vida não proporciona o contínuo bailar. Há sempre o momento da pausa, da respiração, de tirar os sapatos, estalar os dedos, esticar o corpo e continuar… até que se entre no ritmo novamente. As pausas são justamente o momento de restaurar o impulso e o equilíbrio.

“Do nada”, o espetáculo ressurge. E antes que as cortinas se abram, surge também o silêncio onde residem as respostas que buscamos. O desafio está justamente em acreditar e estar disposto a receber o melhor com verdadeira alegria e coração aberto, no momento certo. Quando mergulhamos no vazio, no espaço entre todas as coisas, não há mais dúvida, não há restrição e nem bloqueio para aceitar aquilo que é nosso por inteiro. Há apenas aceitação.

Quando silenciamos podemos ouvir melhor. Quando silenciamos podemos sentir melhor. Quando silenciamos nos permitimos banhar por todos os sons e por todas as formas. Mais difícil do que o silêncio da boca, das palavras, dos sons emitidos é o silêncio interno, o silêncio da mente. Apenas quando a mente silencia podemos entrar em contato com a essência do Ser. Mas temos por hábito falar e comentar, nos entreter com sons e imagens, fugindo do encontro profundo com a realidade. Criamos realidades falsas sobre a realidade verdadeira. Queremos acreditar em nossas fantasias e nos incomoda o silêncio que permite penetrar no real e cancelar o falso. São armadilhas da mente humana. É necessário conhecer a própria mente. Para isso há o caminho do silêncio. O caminho de aquietar as oscilações mentais.” (Monja Coen)

A mente está em atividade o tempo todo, e no constante modo de agir de forma automática, não temos o hábito de observar esse vazio. Na verdade, estar em contato com ele causa até certo desconforto. Estamos condicionados a acreditar que o pensar compulsivo é que nos torna mais competentes, inteligentes, atentos e admiráveis. Mas há um espaço, entre as pessoas, os objetos, as palavras, os passos e a dança… que dá sentido a todo o resto, que dá sentido à presença.

Segundo Monja Coen: “Desaprendemos a estar com alguém em silêncio. Sentir a presença de alguém sem precisar conversar, falar ou comentar a realidade. Apenas estar presente. Presença absoluta, sem nada extra, sem nada faltando. (…) Mais do que muitas palavras, a força da quietude interna não precisa alardear sua sabedoria ou compreensão. Podemos estar em grande intimidade, sem nada dizer.”

Eckhart Tolle completa: “Procure no silêncio, no lugar onde os sons nascem e para onde retornam. Prestar atenção ao silêncio exterior cria um silêncio interior, e a mente fica serena. Um portal está se abrindo. O silêncio torna possível que o som aconteça. Essa é a razão pela qual dizem que nada nesse mundo é tão parecido com Deus quanto o silêncio.”

Sobre acreditar e entregar

Cristiane Drews, designer

É no silêncio, quando aceitamos a ausência das respostas, que surgem mensagens como sopro suave, enviadas diretamente para acalmar a alma e pincelar de cor os dias cinzentos. E essa me pegou assim. Não fez cerimônia, não pediu licença. Quando percebi, estava ali, com as letras miúdas preenchendo a alma de inteira gratidão e compreensão.

A designer Cristiane Drews fez, ao longo de quatro meses, mil origamis de tsurus, uma espécie de ave muito apreciada – e até considerada sagrada – no Japão. É símbolo de boa sorte, felicidade, longevidade, fortuna e saúde. Naturalmente, a designer já cultiva o gosto por objetos pequenos, delicados, diferentes… e o desafio foi uma forma de abraçar, em meio às voltas incompreendidas que a vida dá, a crença que extrapola a razão de que tudo ficaria bem.

Em suas redes sociais, Cristiane escreveu: “Sobre dobrar mil tsurus e acreditar. Segundo a cultura japonesa, aquele que fizer mil origamis de tsurus, utilizando a técnica original de dobrar em papel, e mantiver em sua mente um desejo, ele poderá ser realizado.

A crença se popularizou pela história de Sadako Sasaki, vítima da bomba atômica… Ela não falou sobre sua dor ou sofrimento, ela simplesmente deixou suas orações para os origamis, encheu-se de esperança e começou a dobrar os tsurus e a cada um que ficava pronto, dizia a si mesma: eu escreverei PAZ em suas asas e você voará o mundo inteiro. Ao final, não se trata de mil tsurus curarem, e sim a ‘mentalização do sonho’. Esta é a parte mais bela: voltar pensamentos positivos enquanto dobra.

Tudo está mais ligado à força e à concentração do pensamento para alcançar o que desejamos, e nas pessoas envolvidas. Sobre ter pensamentos positivos diante dos ‘problemas da vida’, resgatar sonhos, fazer com que o ser humano nunca duvide da sua capacidade de realização e, principalmente, despertar o sentimento de solidariedade pelo outro. Para quem a dobradura é oferecida, estamos desejando saúde, prosperidade e gratidão. Se você quiser acreditar, dará certo.”

Os mil tsurus foram confeccionados em quatro meses e, na reta final, Cristiane contou com a ajuda de familiares

 

Justamente em suas pausas, criou espaço para o despertar de sua positividade. Cada pequeno momento que sobrava no dia era oportunidade de fazer algumas dobras. “Até mesmo quando travava o computador…”, relembra. Na reta final, teve também a ajuda da família. “O pessoal aqui de casa resolveu dar uma mãozinha… levavam junto e faziam até em esperas em consultório, estacionamentos…”, recorda. Da aparente espera fez-se um sonho, e a missão não acabou após a confecção dos mil tsurus. O desafio agora é entregá-los a todos que de alguma forma a ajudaram. “Quero criar uma ligação, um laço… Quando se dá um tsuru a alguém, você deseja gratidão, positividade, tudo de bom… E isso deu mais valor ainda ao feito.”

Acreditar é se entregar. E até que a entrega não aconteça, a crença é algo que lemos, ouvimos falar, escrevemos, pensamos, desejamos… A crença reside na confiança e a forma como a percebemos ou definimos não faz diferença. Não, de fato, até que a entrega tenha se tornado verdadeira realidade em nossas vidas.