Em alguns países do leste europeu, tive a impressão de que o seu povo não estava acostumado a ver negros pisando em suas terras. A cor da pele obviamente atraía olhares. Meu cabelo crespo, então… Ah, ele chamou um bocado de atenção por lá.

Olhares de estranhos raramente me incomodam, sejam de admiração, de curiosidade ou até de preconceito. Mas, foi em Rasnov, cidadezinha da Romênia, que cometi um ultraje.

Eu explico: nos dias em que a temperatura estava abaixo de zero, eu costumava usar o capuz do casaco para me proteger do frio. O cabelo solto passou a ser pouco prático, eu precisava prendê-lo quando esfriava.

Certo domingo, antes de sair de casa para passear, falei para o Rosemir, meu marido:

Hoje vou prender meu cabelo, está frio e… as pessoas vão me olhar menos.

A sua cara de reprovação foi instantânea. Ele adora meu cabelo, sem amarras, sem grampos, com todo o seu volume. Eu também. Se tem algo que gosto muito em mim, são dos meus cachos.

A minha restrição, porém, não tinha a ver com eles. Se você entra em um trem e ainda não sabe direito como comprar o ticket, todos te olham. Se você pede uma informação, todos te olham. Se você anda na rua, tropeça, cai, se amontoa, todos te olham. Afinal, você é um estrangeiro e seres humanos são curiosos.

Mas, eu sentia que chamava muito mais a atenção. O fato é que ficar o tempo todo atraindo olhares começou a me chatear. Foi de leve, de mansinho, meio relutante, mas eu não conseguia fazer nada sem ter uma plateia assistindo.

Naquele domingo, quando eu vi a cara do meu marido, percebi a estupidez do que eu disse. Entendi que é isso que acontece o tempo todo com as “minorias”. Fazem com que você se sinta a exceção diante dos outros. Olham, encaram, intimidam e a gente naturalmente recua, se recolhe, amarra os cabelos. Continua sendo a minoria.

cabelo crespo

Continua sendo presença mínima em empresas, restaurantes, bares, universidades, países. Sei como é, em boa parte desses lugares eu já fui a minoria. Mesmo assim, durante a vida, fiz o que foi preciso, com coragem, com respeito, com a responsabilidade de representar quem eu sou. Valorize-se também. Tenha orgulho e agradeça cada célula que compõe esse todo que é unicamente você. Mudar para se manter no fluxo é desrespeitar suas raízes, sua história, sua família e você mesmo.

Aos fins de semana, antes de sair de casa costumo tirar uma foto e enviar para a minha mãe. Ajuda a matar a saudade que a gente sente. Em resposta, ela quase sempre diz: filha, como seu cabelo está lindo! Ainda bem que o momento de delírio que tive naquele domingo, em Rasnov, durou apenas alguns segundos. Sempre tem alguém que, com amor, estende a mão, te puxa e diz: não faça isso, você é linda.

O meu cabelo é uma coroa natural. Levei cada onda, cada frizz e todo o seu volume para passear comigo. Fiz daquele domingo mais um dia livre no meu reinado.