Eu garimpava, nas últimas semanas, um tema para encerrar meu ciclo de textos de 2017 aqui no portal. Uma carta de despedida para esse ano, que de tão rico e intenso poderia se desdobrar em inúmeras possibilidades para escrita. E no desafiador exercício de confiar e entregar, eu acreditei que em algum momento “esse tema” pousaria em meu colo.

Em um passeio com meu primo Fernando, falávamos sobre as expectativas que depositam em nós. O que os pais anseiam, o que o trabalho exige, como a sociedade espera que a gente se comporte, o que se almeja em um relacionamento – e o que realmente buscamos. E então, eu disse a ele:

–  O fato é que estamos aqui, nesse momento, apenas racionalizando. Mas, só temos a resposta precisa de algo, ou só saberemos o que vamos sentir ou como vamos agir, quando de fato “esse algo” acontecer. A razão se sobrepõe mais facilmente à emoção quando ficamos hipotetizando, mas, na prática, só teremos certeza “com a prática”.

O papo sobre planos e suas bagagens ritmou nossa corrida até o Mirante de Joinville, e alguns dias depois, ele generosamente me presenteou, com uma camiseta linda. Com a palavra escrita – Resilience –  veio à luz o meu tema de despedida. Gratidão!

Re·si·li·ên·ci·a

Para embalar essa leitura, sugiro que ouça:
Up&Up (Coldplay)

No sentido figurado, o dicionário define resiliência como: a capacidade que um indivíduo ou uma população apresenta, após momento de adversidade, conseguindo se adaptar ou evoluir positivamente frente à situação.

Esse ano foi transformador. Desdobrei-me em mudanças e desafios pessoais e profissionais e, hoje, sinto ter amadurecido alguns anos em um só. 2017 foi o ano das “primeiras vezes”, e portanto, com doses extras e convidativas de aprendizados. O ano com mais professores, sendo cada um deles igualmente essencial e inspirador.

Quanto mais aprendi, mais me senti confortável para admitir mais vezes que “não sei”. Por muito tempo acreditei – e me cobrei – o “saber as respostas”, e essa mudança abriu portais de luzes, em momentos sensíveis e essenciais: “eu não sei, mas estou com disposição e coração aberto para aprender”. É restaurador agregar amor em forma de conhecimento, ser acolhido pelo que ainda não se sabe, ou por quem quer ensinar… com a leveza e a alegria de ser surpreendido.

“Você não é obrigado a responder rapidamente a filhos, parceiro, amigos, colegas de trabalho. Ser instintivo depende da carga genética, não demanda transpiração nem treinamento; já controlar o instinto animal, superar a ditadura da resposta pronta, se interiorizar e pensar antes de agir são funções complexas, não cognitivas, que devem ser treinadas com frequência ao longo da vida.” (Augusto Cury, no livro Gestão da Emoção)

Com aprendizados e o desejo de ir além, naveguei por territórios desconhecidos, revivi sensações adormecidas, experimentei sentimentos novos. Observei-me cobrando demais, de mim e dos outros, e aliviei a barra para deixar a vida fluir. Ao perceber que não era o rumo, desviei a rota para dentro de mim, com a humildade de admitir que os caminhos nem sempre se configuram conforme os planos que fazemos. Mas, talvez (… e creio que sim!), há outros planos grandiosos que estejam sendo desenhados por uma sábia e infinita inteligência, e que estão muito além do nosso entendimento limitado e condicionado apenas ao que sabemos, sentimos e conhecemos. Maktub!

Mas… e como encarar essas situações negativas mantendo o olhar positivo?

Se eu pudesse dar apenas algumas recomendações para que você possa aprimorar seu pensamento resiliente em 2018, com base em experiências e ensinamentos que tive, eu diria:

1. Riscos são inevitáveis

Algumas vezes achamos que podemos falhar, e isso realmente pode acontecer. O medo de ter o coração partido novamente pode vir após uma ruptura. O medo de se candidatar a uma nova promoção, após uma rejeição. O medo do desconhecido em detrimento daquilo que é seguro… Mas, lamento dizer, tudo que vale à pena só vem com algum risco. É um pacote completo e fechado, e com ele vem a possibilidade de lapso.

O grande segredo é saber se recuperar e lidar com a falha, caso ela trilhe o seu caminho, por isso, abraçar suas decisões com coragem é admitir que podemos criar nossas próprias razões para fazer ou não algo. Não vou me estender aqui, mas você pode assistir ao vídeo: How to make hard choices, da filósofa Ruth Chang. 

2. Caia, mas não esmoreça

Há uma frase que diz: “o problema não é tropeçar, mas apegar-se à pedra.” E aí está o grande quê da resiliência: reestruture-se positivamente. Todas as pessoas bem-sucedidas têm o mesmo em comum: terem, em algum momento da trajetória, falhado. Entenda o fracasso como uma oportunidade para aprender novas habilidades, aumentar a criatividade e se tornar um melhor solucionador de problemas. Encontre novas fontes de sabedoria, energia e força para se concentrar em seus objetivos.

3. Às vezes, a resposta é “não”

A vida nem sempre será perfeita e as circunstâncias vão se estabelecer, sejam ou não da forma como esperamos. Quando a resposta dada a você for “não”, descubra como trabalhar com soluções e recursos que tornem sua vida mais agradável, com a permissão do seu “sim”. Com tempo e determinação, você aprende… e é sobre isso que a vida é feita.

4. Seja compassivo consigo mesmo

Podemos desacelerar e parar de fugir do desconforto. Aliás, do que tanto fugimos? Se você está enfrentando algo que te deixa infeliz agora, encoraje-se a pensar adiante. Se algo não está disponível nesse momento, o que está? Quais recursos você tem, nesse momento, para aceitar ou mudar a situação desconfortável em que vive? A autocompaixão é uma habilidade que pode ser desenvolvida e que irá ajudá-lo a ter respostas resilientes aos pensamentos negativos. Seja gentil consigo, e, ao mesmo tempo, seja fonte inesgotável de suas próprias emoções positivas.

5. Conte com suporte

Em momentos de dificuldade, mesmo que o seu primeiro impulso seja tentar controlar ou enfrentar sozinho, resista. O apoio de alguém é o maior preditor de felicidade a longo prazo. É no instante de compartilhar que você pode encontrar em um abraço alguém que diz: “não importa o que está havendo, eu cuido de você.”

Para ajudá-lo a superar problemas, amigos e familiares de confiança podem fazer a diferença para que se sinta mais otimista, confiante e capaz. Você pode descobrir que esses pequenos atos de cumplicidade e conexão tendem a proporcionar impulso à sua sensação de bem-estar.

6. Esteja atento aos pensamentos

Há uma nova geração de terapias baseadas em aceitação e consciência plena, e o pensamento resiliente está incluído nesse novo padrão, conforme explicam as pesquisadoras Elissa Epel e Elizabeth Blackburn. Essas terapias não tentam modificar os pensamentos negativos ou o sofrimento, mas sim observá-los, de modo que haja mais clareza a respeito deles. Com a prática constante, eles se dissipam.

“Quando se tem mais consciência dos próprios pensamentos, tudo fica visível. (…) Nós temos aproximadamente 65 mil pensamentos por dia. É impossível controlar a geração deles todos; eles não param, não importa o que façamos. E isso inclui pensamentos que não gostaríamos de ter. Mas, quando você pratica a consciência do pensamento, percebe que cerca de 90% são repetições daqueles que surgiram antes. Você se sente menos impelido a se agarrar a eles a levá-los aonde quer que o conduzam. Eles simplesmente não merecem ser seguidos.”

7. Seja grato

Cultive a prática de agradecer e apreciar. Quando o seu olhar está focado nos presentes em sua vida, você achará mais fácil manter seu espírito elevado para encarar o que precisa ser feito. Agradeça a todos que passaram pelo seu caminho. Ninguém entra em nossas vidas sem que seja para nos fazer crescer. Se alguém apenas vagueou despropositadamente em seus dias, agradeça definitivamente, pois cada momento difícil também faz parte de quem somos.

8. Cultive o amor

Ofereça seu amor a todos. Sem restrições. Seja qual for o sentimento que as pessoas tiverem despertado em você nos últimos 365 dias, retribua com o seu amor honesto e despretensioso. “Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar”, já dizia Fernando Pessoa. Permita, também, que as pessoas saibam o quanto são apreciadas.

Momentos difíceis nem sempre são infortúnios.
Na maioria das vezes, são dádivas.

Que eles te elevem, alegrem e fortaleçam.

Gratidão a todos que foram ensinamento, luz, amor e presença em minha vida. Que eu seja merecedora e possa ser, da mesma forma, fonte de luz e amor a quem também acolher esse meu querer.