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Quando viajamos para a Europa, a intenção era a de ficar pelo menos seis meses em Portugal.

Após alugar o primeiro apartamento, semimobiliado, compramos alguns objetos pessoais, ao nosso gosto, para que mesmo longe de casa pudéssemos sentir um pouco do aconchego de um lar.

Dois meses depois, a vida deu uma daquelas guinadas que faz as pernas bambearem. Tínhamos de decidir se ficaríamos por ali ou seguiríamos viagem.

O primeiro pensamento foi: e as nossas coisas?

O espírito-passarinho venceu. Eu, pragmática, tratei logo de fotografar tudo que tinha e não poderia ser levado: roupas, calçados, cobertores, travesseiros, ferro elétrico, panelas, pratos, cortinas, pequenos móveis.

Tudo que meses atrás havia sido escolhido com a euforia de quem acabou de chegar cheia de expectativa e planos de temporária estabilidade.

Além da limitação de espaço na mala, a ideia era deixá-la mais enxuta já que tínhamos levado muita coisa do Brasil. Desconfio que o peso comprometeu a saúde nas primeiras semanas de viagem.

Por isso, não pensei duas vezes. Anunciei os itens em grupos de estudantes e pouco a pouco foi aparecendo gente interessada. O apartamento foi ficando vazio enquanto a alma se enchia de expectativa pelo que viria em seguida.

Como era agosto e estava ficando friozinho, negociei para que buscassem o cobertor apenas no penúltimo dia. A gente dormiu sem travesseiro e apenas com um lençol na última noite. O calor da leveza aqueceu nosso sono de despedida.

Não consegui vender tudo que queria.

IMG_20151204_124344164_HDRUma moça, brasileira que está estabelecida no Porto há anos, entrou em contato e disse que se tivesse algo que não pudesse levar, ela iria buscar.

Quando passou no apartamento, já estávamos com as malas prontas com apenas o necessário. Faltavam 15 minutos para sairmos para pegar o metrô sentido aeroporto. Ela levou tudo que sobrou na casa, disse que ia doar para uma instituição carente.

Fiquei contente por deixar coisas que seriam muito mais úteis para um desconhecido que para mim. Ganhou de brinde minha gratidão.

Assim como a mala, naquele momento, eu fiquei mais leve e mais uma vez exercitei o sentimento de deixar para trás o apego por coisas que foram feitas apenas para facilitar a vida, e não para se apegar.

E assim continuei espalhando desapego durante a viagem. Em Paris, deixei um cachecol verde-amarelo e um casaco xodó para uma simpática artesã francesa e duas sacolas de roupas para uma ONG que ajuda necessitados.

Em Sofia, deixamos calçados. Em Praga, o que estava sobrando na mala. Em Madri, algumas roupas de inverno que não teriam mais serventia no Brasil.

Desapego em Paris :)

Desapego em Paris 🙂

Quanto pesa a sua bagagem?

Estar leve nem sempre significa estar vazio. Quando se tem pouco espaço, somos mais seletivos, percebemos com mais carinho e atenção o valor de cada coisa que está ali ocupando lugar. E se está, é porque realmente importa.

Passamos a vida carregando uma bagagem cheia – de bugigangas, de preocupações, de sentimentos de apego, de limitações, de vontades demais e ousadia de menos – sem perceber que “só possuímos na vida o que dela pudermos levar ao partir”.

Essa última frase é de uma crônica chamada “Vende-se tudo”, da escritora Martha Medeiros. Eu recebi esse texto da amiga e também jornalista Dani Lando, poucas semanas após a minha mudança de Portugal para a Croácia, com a mensagem de que lembrou de mim.

O texto ainda dizia: “Não são as coisas que possuímos ou compramos que representam riqueza, plenitude e felicidade. São os momentos especiais que não tem preço, as pessoas que estão próximas da gente e que nos amam, a saúde, os amigos que escolhemos, a nossa paz de espírito.”

Não me apegar tanto às coisas que não tenham valor sentimental, seja em viagens ou no dia-a-dia, é um desafio que tenho encarado há um ano. Ser lembrada por isso é uma prova de que pouco a pouco eu vou seguindo (e conseguindo).