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Era começo de 1984, eu ainda não havia nascido. A expectativa de ter uma menina em casa fez nascer prematuramente o meu nome, Carla. Nada deve ser tão significativo quanto estender sua identidade a um filho. Mesmo que às vezes contra todos os argumentos da razão, é uma aposta do coração no futuro.

Um braço da sua existência, uma continuidade do seu próprio ser, um pedaço do corpo que vive totalmente independente. Ahhhh… e como essas asas próprias de um filho deixam mais longos os dias e as noites de um pai.

Quando pequena, antes de ir para o jardim de infância, penteava o meu cabelo. Puxava em um rabo de cavalo, deixando bem lambido. Um esmero perfeccionista por cada fio.

Foi meu primeiro professor e corrigia as lições antes de eu levá-las para a escola. Dizia que era importante estudar, saber matemática, mas me incentivou quando optei pelo jornalismo.

Também foi meu primeiro cabeleireiro e cortou meus cachos desajeitadamente, mas não gostou da minha maquiagem precoce, aos oito anos. Saí para brincar na casa de uma coleguinha e voltei com o rosto colorido de alegria. Disse que eu ainda não tinha idade.

Nunca deu as coisas materiais que queríamos, mas fazia questão que tivéssemos as necessárias. E eu pude entender, desde pequena, que a vida é mais complexa que desejar um par de sapatos na vitrine.

Quando comecei a trabalhar e sair à noite, pedia para maneirar e voltar cedo para casa. Não deixe tua mãe preocupada.

Viu-me despedaçar, deitou minha cabeça em seu colo, sem repreender, quando chorei depois de um porre por não estar com o homem que amava (e ainda amo).

Aos 20, quando decidi sair de casa, deu a palavra de incentivo, depois do alerta de como a gente pode se frustrar com as expectativas. E sua mão leve e lentamente soltou a minha, mesmo querendo que a despedida ainda demorasse. Todo pai sofre quando chega a hora de soltar a mão de um filho para que ele possa correr – ou voar.

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Fez manobras financeiras para que eu pudesse estudar, montar um negócio, sair pelo mundo. Fez malabares e adiou seus planos para que pudéssemos realizar os nossos sonhos.

Ainda hoje me chama de filinha. Desse jeitinho mesmo e pergunta três vezes se está tudo bem antes de desligar. Se precisar de algo, eu estou aqui.

Puxa a orelha e os pés de volta ao chão quando o corpo parece levitar. Ainda diz: não gaste demais. Não trabalhe apenas para pagar o que já gastou.

Quando eu estava longe, perguntava quando estaria de volta, mesmo já sabendo a resposta. E os meses apertavam o coração de quem não distancia a esperança.

Não moramos juntos há anos. Mesmo assim, de vez em quando vai ao mercado e pede para levar refrigerante, achocolatado e iogurte para as crianças. Sim, nós seremos sempre suas crianças.

A dor da saudade vem sempre antecipada, por cima das hastes dos seus óculos de grau. Ela encontra os meus olhos, lamenta a falta de controle (filhos são do mundo) e deseja intimamente que eu volte a ser criança. Que ainda pule corda com o cabelo lambido de amor.

Ele só quer que eu seja feliz, e que eu possa carregar a coroa imaginária que pôs na cabeça quando ainda nem sabia qual seria o meu nome. No nascimento, aos 15 ou 32 anos, a todo momento terá a certeza de que serei para sempre sua pequena princesa.