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Gentileza. Essa qualidade tem esbarrado comigo em uma esquina ou outra. E ela sempre me faz lembrar da frase: “todo mundo que a gente encontra está enfrentando uma batalha que você não sabe nada a respeito.”

Eu estive em Buenos Aires há algumas semanas. É uma cidade com cerca de 3 milhões de habitantes. Caótica! Centenas de ônibus retrôs com números enormes no para-brisa dominam as ruas da cidade cosmopolita. É um vaivém frenético de carros, de bicicletas, de pessoas, em qualquer lugar, em todos os horários, contrastando com as construções charmosas que decidiram, por bem, estagnarem no tempo. São buzinas assoviando para lembrá-lo de que você deve prestar atenção. Sempre, e no mesmo ritmo da cidade.

Quem está diante de nós?

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Enquanto atravessa a faixa de pedestres, ônibus e táxis vão dando aquela brecadinha como recado para que agilize o passo. A impaciência tenta montar acampamento, mas aí você olha para aquela lotação e percebe que ali tem gente cansada e enlatada querendo chegar logo em casa para tomar um banho, para dar um abraço no filho ou apenas para poder respirar. E então, você colabora apressando o andar. É o que se pode fazer.

Depois de São Paulo, Buenos Aires é a segunda maior área metropolitana da América do Sul. Aí você já vai entendendo o cenário. Em meio ao caos, sabe o que mais chamou a minha atenção? Gentileza. E essa percepção se estendeu à outra cidade que visitei, Mendoza, a capital do vinho.

— Onde fica a parada de metrô?

A resposta não era um simples “é ali”. A resposta vinha acompanhada de outra pergunta: donde tu vas? Porque a resposta poderia ser diferente dependendo de onde você desejava ir. Às vezes, um ou outro saía de seu posto de trabalho ou do seu banquinho para mostrar exatamente a direção que deveríamos seguir. Não era uma simples informação, era uma ajuda.

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Estação de trem de Buenos Aires

Dias depois, estávamos na estação de Mendoza e havia na fila uma garota de uns 12 anos que ia viajar com o avô. A mãe estava junto e achei que iria também, mas assim que os dois embarcaram, ela disse: tchau, mi amor. A voz aveluda surgiu por cima dos meus ombros com tanta doçura que foi impossível não me emocionar e lembrar de todos que precisam dizer: adeus, meu amor. Quanto bem querer nesse até logo.

Eu poderia ampliar a lista de gentilezas que preencheu as linhas em branco que partiram para essa viagem. Muitas pessoas me perguntam como são os argentinos. Eu tenho tentado desconstruir pensamentos, estereótipos e generalizações, e acredito que quando a gente abre o coração corre o risco de o caminho ficar livre para as surpresas que se apresentam. Afeição não depende exclusivamente dos outros. Depende de “nós”, pois temos que estar dispostos a receber. E a oferecer.

Y sí, los hermanos son muy amables.

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La Florida, um dos principais passeios da capital argentina

Quem está em terras muito além do lar sabe a riqueza que é se sentir acolhido. Eu já falei sobre isso no texto Será que estamos percebendo os sinais de doçura pelo caminho?. As simples cortesias são abraços macios de algodão, como diria a Elair. As demonstrações mais genuínas de amor são o que fazem a minha alma vibrar com mais intensidade. Uma ou outra lágrima rola, mas eu sempre enxugo rapidinho para que ninguém as veja.

Viajar é deixar o eu acessível aos sentimentos mais primários e valorizar as necessidades mais básicas, como um travesseiro cheiroso para dormir, uma comida com o tempero que lembra o de sua mãe ou um olhar que encontra um sorriso perdido na calçada, só esperando que alguém esteja aberto a recebê-lo.

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No ônibus, de Mendoza para Santiago

Em meio às pilhas de papéis, ao sinal vermelho fechado, ao pito do chefe, à faixa de pedestres que te atropela, à fila do banco lotada, eu sei que às vezes é difícil, mas seja gentil.

Seja gentil, sempre. Se o seu dia estiver ruim, se esforce. Você se surpreenderia com a quantidade de dias bem mais ruins que outras pessoas podem estar vivendo agora. Cada um carrega seu próprio fardo, e não sabemos qual é o peso da carga alheia. Todos os dias, enfrentamos conflitos particulares, e mesmo se você olhar para o lado com cuidado, não será tão simples identificá-los. Por isso, não subestime nem diminua o poder da gentileza.


Em tempo!

Minutos antes de publicar esse texto, li a mensagem que o argentino Ramiro escreveu no Airbnb sobre os dias em que estivemos em Mendoza. Alugamos seu apartamento por uma semana e foi uma experiência maravilhosa. Ele nos dedicou cuidado, tempo e ainda nos presenteou com um vinho muy especial de uma bodega local.

Suas palavras reforçam o sentimento de gratidão aos momentos, sejam pelas ruas, calçadas, guichês, restaurantes ou estações, que tivemos a felicidade de dividir com quem cruzou pelo nosso caminho.

Carla y Rosemir, son excelentes huéspedes (…) Tuve la suerte de poder compartir una tarde de paseo con ellos y puedo decir que son muy agradables y simpáticos además de que tienen un gran sentido del humor. Es muy gratificante recibir gente como ellos. Espero que regresen pronto y los recomiendo totalmente.

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Rosemir, eu e Ramiro 🙂