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A meditação extrapolou o Oriente e os praticantes do budismo e do hinduísmo, sendo abraçada pelos mais diferentes povos e pessoas do Mundo. Baseado originalmente no conceito da meditação budista, Mindfulness, que significa “atenção plena” ou “consciência plena”, promove o estado mental de prestar atenção no momento presente de maneira aberta e gentil.

Convida a observarmos e estarmos atentos às experiências vividas com aceitação. O exercício de se abrir à consciência cria a habilidade de uma reação mais criativa. “Quando nos abrirmos para a ideia do silêncio, nada mais importa. Os pensamentos vêm, mas não nos arrebatam”. A frase é do professor Antonio Fernando Stanziani, conferencista durante o IV International Meeting on Mindfulness, realizado em São Paulo, de 7 a 10 de junho, na Fundação Escola de Comércio Álvaro Penteado (Fecap).

Além do Brasil, o congresso reuniu palestrantes da Espanha, Chile, Reino Unido e Estados Unidos, compartilhando experiências de aplicação de Mindfulness na vida e nas áreas da saúde, educação, alimentação, desportiva e bem-estar. O professor Stanziani destacou o que outros convidados também ressaltaram para fazer uma prática meditativa: a compaixão é essencial. “Precisamos descobrir a própria humanidade, se respeitar para respeitar o outro”.

Harmonia nas diferenças

O evento acolheu ciência e religião por meio do diálogo. “A ciência coloca os fatos, as tradições os valores”, falou Stanziani. Em outro painel, o Lama  Rinchen Khyenrab, Lama residente do Mosteiro Sakya Brasil, destacou que Mindfulness é se colocar no mundo com uma visão ampla e, sobretudo, com afeto. Segundo ele, a verdadeira felicidade vem de ver o outro feliz, quando ajudamos, quando temos compaixão.

A vida pede pausa

Em sua apresentação, o Lama Rinchen Khyenrab destacou um texto do espanhol Jorge Larrosa Bondía, doutor em Filosofia da Educação:

A experiência, a possibilidade de que algo no aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço.”

Se algo precede algo, sou eu…

A Lama Tsering, nascida nos Estados Unidos e hoje Lama residente do Centro de Budismo Tibetano Chagdud Gonpa Odsal Ling, reconheceu que é difícil manter a disciplina, diligência e comprometimento consigo próprio, “mas se alguma coisa precede algo, sou eu mesmo”, enfatizando que não podemos nos render ao nobre desejo de salvar o mundo, se não cuidarmos, com amor, de nós mesmos.

Não se deixe congelar pelo que você pensa

Com uma metáfora do gelo, a Lama Tsering explicou porque temos tanta dificuldade com o que queremos. “O gelo vem da água, mas, com a influência do frio, se transforma e se solidifica. O gelo só poderá se descobrir que é água se remover de si o frio”, detalhou. Segundo ela, assim é o nosso ser, formado de perfeição que permeia tudo. “Mas esta verdadeira natureza a mente não reconhece, e você não reconhece porque está ocupado com o eu, e este ‘eu’ nunca fica satisfeito”.

Enquanto o eu faz uma nova lista de desejos a serem atendidos, a cada objetivo que alcança, de acordo com ela, o absoluto em nós é perfeito e não tem qualquer necessidade. A atenção plena – Mindfulness – permite deixar ir, relaxar o eu, limpar, e produzirmos o que somos naturalmente.

Mindfulness para conectar com o divino

A atenção plena – Mindfulness – permite deixar ir, relaxar o eu, limpar, e produzirmos o que somos naturalmente

Dom Alexandre de Andrade, monge beneditino e instrutor de Canto Gregoriano, do Mosteiro de São Bento, em São Paulo, disse que devemos acolher a medidação, dada por outras culturas, para melhorar a nossa fé. “A meditação é simples, mas exige disciplina interior, afastar o pensamento de tudo que impeça de sentir Deus presente no coração”.

Transcende as religiões

“Independentemente do que façamos, será a ética apropriada. A ética é um pré-requisito para a prática da meditação”. Quem defende esta ideia são os professores Dr. Edo Shonin (PhD pela Nottingham Trent University, UK) e o Dr. William Van Gordon (PhD pela Nottingham Trent University, UK). Shonin destacou o cuidado necessário com a mente porque temos o poder de criar e de simular. “Viva a sua vida, não permitindo que a mente viva por você”, alertou.

Na avaliação do professor Van Gordon a meditação pode ser de todas as religiões, mas transcende todas elas. E o primeiro passo para meditar é desenvolver os princípios humanos e a compaixão. “Seja feliz, seja humano primeiro”, recomendou. Ele listou os princípios chaves da Atenção Plena: abster-se de ingerir ideias e pensamentos intoxicantes e visões equivocadas.

Para quem tem problema com a palavra espiritualidade, Van Gordon lembrou: “mas nós  somos feitos de corpo, mente e espírito”.

As Mentoras de Felicidade, Carla Cabral e Elair Floriano, com o presidente do congresso, Marcelo Demarzo

Entre a Espanha e o Brasil

O IV International Meeting on Mindfulness é organizado pelos professores doutores Marcelo Demarzo e Javier Garcia-Campayo. Demarzo, presidente do congresso, é professor da Universidade Federal de São Paulo, coordenador do Centro Mente Aberta, co-autor de diversos livros e artigos científicos sobre Mindfulness. Garcia-Campayo, vice-presidente do congresso, é professor na Universidad de Zaragoza, Espanha, onde é diretor do Centro de Mindfulness. Também é autor e co-autor de diversos livros e artigos.

Como se alterna entre o Brasil e a Espanha, o congresso de 2018 será na Espanha, e, em 2019, volta a ser realizado no Brasil.

 

 

 

A meditação é simples e tem como princípios abster-se de ingerir ideias e pensamentos intoxicantes e visões equivocadas