Não ande com os pés nesse chão frio. Não lave o cabelo tão tarde da noite. Acorde às 6 horas. Caminhe, faça exercícios físicos. Visite seus avôs sempre que possível. Saia da frente do computador enquanto almoça. Feche a tampa da pasta de dente depois de usá-la. Durma cedo. Cuidado para não bater a cabeça na porta do armário. Viva o hoje. Não gaste mais do que tem. Diga bom dia, todos os dias. Faça um plano de saúde. Seja pontual, é um desrespeito deixar alguém esperando. O amanhã não nos pertence. Tome água, no mínimo dois litros por dia. Estude muito. Não seja escravo do seu trabalho. Leve um casaco. Anote, depois irá esquecer. Não coma pão à noite. Perdoe quantas vezes for necessário. Preste atenção ao que as pessoas falam. Lave sua louça. Desligue o celular. Desconecte-se para poder se conectar. Não esqueça do guarda-chuva.

Se eu pudesse acrescentar algo nessa lista mental que nos acompanha dia a dia, eu diria: perca-se, erre, aprenda.

aprender com o erro

Mas… Como assim?

Eu ouvi várias vezes de um chefe: “Eu adoro um certo caos, pois é nele que as pessoas se revelam.” O que isso significa? Que nos momentos de crise, de incerteza, de pressão é que você diferencia quem se deixa tomar pelo contratempo de quem aproveita para dar a volta por cima, exercitar o jogo de cintura, repensar, redefinir, executar novamente. Resumindo: nos momentos de dificuldade é que percebemos como reagimos ao inesperado.

Já tomei boas decisões na vida, e outras péssimas. O interessante é que as boas vieram justamente nos momentos em que fiz algo errado e só assim tive ideia de qual era o melhor caminho. As péssimas, aquelas do — putz, esse não era o rumo! — doeram por algum tempo, mas, em seguida, conceberam decisões mais maduras. Ou seja, ambas tiveram origem no erro. Dificilmente fazemos escolhas perfeitas de primeira, sem titubear, mas elas podem ser redefinidas a partir da experiência do erro, se assim permitirmos.

Por que devemos estar dispostos a errar?

Em entrevista ao programa Sangue Latino, do Canal Brasil, o ator e diretor argentino Ricardo Darín fala sobre o seu relacionamento com o erro (você pode ver o vídeo completo aqui):

Tudo está muito condicionado ao resultado. Tudo está muito condicionado à efetividade, ao acerto. Por exemplo, nossas gerações jovens atuais estão condicionadas a uma pressão permanente que tem sido exercida, voluntária ou involuntariamente sobre a juventude, no sentido de que devem acertar, devem ser bem-sucedidos em tudo que fizerem. E eu detesto essa visão. Detesto a ideia de não poder errar, de não poder aprender com os erros, de não poder falhar, e nos levantarmos, nos recuperarmos e seguir em frente. Porque esse é um dos motores do templo humano. Errar.

Quando crianças, somos alertados sobre os perigos de nossas ações, o tempo todo. “Não faça isso, não faça aquilo, assim não pode!” Sobretudo, temos quem nos proteja das consequências com doçura, paciência e sinceridade. Podemos contar com quem estará lá para nos acalmar quando tudo der errado, ou, justamente para evitar que qualquer coisa dê errada.

Quando nos tornamos adultos, ainda temos essas milhares de orientações muito vivas, mas nem sempre teremos alguém disponível para segurar a nossa mão antes de atravessarmos a rua. E na tentativa constante de acertar, erramos. Em meio a dezenas de decisões que tomamos todos os dias, naturalmente falhamos em algumas. E é justamente essa conexão com o erro que devemos usar como combustível para o aprendizado.

Escolhas e consequências

Todas as frases do início do texto são aparentemente muito óbvias e altamente recomendáveis. Se eu sigo todas? Acredito que nem a metade, mas ciente de que minha vida poderia ser melhor se assim o quisesse. Eu sei o que vai acontecer se eu não dormir cedo, se eu não levar um casaco, se não beber água, se eu não perdoar alguém ou comer muito pão antes de dormir.

São escolhas que faço o tempo todo, tendo claras as consequências. Hoje eu me perco, mas logo, logo me encontro. Quebrar a cara algumas vezes faz parte da vida, mas se reerguer com vigor a cada decisão mal tomada é ter coragem de recomeçar. É claro que não me refiro, em especial, aos erros levianos, mas aqueles que realmente nos movem com a paixão irresistível de fazer acontecer. Permitir-se estar em equilíbrio entre a dor do deslize e o entusiasmo da renovação é um aprendizado fortalecedor.

Errei? Ok, mas eu ainda tenho a opção do recomeço. Como posso fazer (e ser) melhor agora?