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Era sábado em Praga, na República Tcheca. Faltava exatamente uma semana para eu voltar ao Brasil e estar de volta em casa, no meu ninho de aconchego emocional. Faltava uma semana para eu voltar para os meus abraços preferidos.

Caminhava rumo à Havelske Trziste, a feira mais famosa de souvenirs na cidade. De longe, avistei uma garota. Cabelos castanhos, semblante sereno. Meio tímida, segurava uma plaquinha nas mãos que dizia: Free Hugs*.

abraço pedro ceu

Crédito: Pedro Céu Artista Cocriativo**

Isso mesmo! Ela estava distribuindo gratuitamente abraços. Eu fiquei um pouco confusa, parada na linha que divide a vontade de abraçar e a cautela que nos afasta do desconhecido.

Não abracei, não fotografei. Apenas me surpreendi, contemplei e segui em frente.

Ainda olhei para trás, vi que pessoas paravam e também ficavam confusas. Algumas abraçavam. Algo acanhado, meio embaraçado, envergonhado, mas que me fez pensar:

Quantas passaram por ali, com os olhos pregados no paralelepípedo, pensamento distante, em meio à multidão solitária, e encontraram somente no desconhecido um pouco de calor, fé e acalento?

Na vida sem freio, brecada pelo trânsito apressado, pelo trabalho infeliz ou pelos desencontros no caminho, deixamos de dar um abraço em quem está ali, dividindo a mesma cama, a mesma mesa, a mesma vida, debaixo do nosso nariz? Economizamos carinho como se fosse possível guardá-lo para investir em um momento oportuno.

E esse momento nunca chega. A gente viaja, vai embora, muda a rota, simplesmente esquece. E os abraços perdem o rumo na vida sem freio.

A psicoterapeuta norte-americana Virginia Satir diz que precisamos de 4 abraços por dia para sobreviver, 8 para nos manter e 12 para crescer. Abraçar é reabastecer a carga de amor. Quando sincero, faz bem à saúde, nos deixa felizes, reduz o estresse, emana proteção, fortalece relacionamentos. E sabe qual a melhor parte? Totalmente free.

Talvez você não saiba, mas existe alguém ali, bem no ladinho, precisando de um. Seja como um sinal de encorajamento, seja por tristeza, seja pela necessidade de sentir que existe alguém que se importa.

Naquele sábado, eu segui adiante e percebi que naquele momento, quase dez meses longe de casa, era disso que eu precisava. Não de um abraço esbarrado na rua, enquanto passeava pela cidade. Precisa de abraços amigos, de abraços de mãe, pai, irmãos… Precisava de abraços de amor. Aqueles que espremem a saudade que a gente sente no peito.

* * *

free hugs campaign

Campanha de abraços grátis 🙂

* A garota de Praga fazia parte da Free Hugs Campaign – campanha dos abraços grátis. Em lugares públicos, pessoas estendem a onda de carinho a desconhecidos. Iniciada em 2004 por um australiano conhecido como “Hugo lloris” se tornou famosa dois anos depois, com o videoclipe da banda australiana Sick Puppies. O vídeo tem mais de 77 milhões de visualizações.

** A fotografia que ilustra esse post foi feita pelo artista Pedro Céu, que comanda o projeto Pedro Céu Artista Cocriativo. Quando comecei a escrever esse texto ainda não tinha uma imagem que o representasse com carinho. Na sexta-feira, Pedro postou essa foto em seu perfil e me cedeu com a gentileza que lhe é comum. Foi o abraço, mesmo que virtual, que eu precisava naquele momento.