maeebabyEra madrugada de 8 de abril e a criança deu sinais de que logo chegaria no planeta Azul. Rapidamente, foram organizados os preparativos para seguirem para a maternidade, porém o momento de mãe e filha se encontrarem seria ali, no portão de casa mesmo. E o parto foi concluído de maneira natural, com a ajuda de uma parteira. Por conta do episódio, e da simplicidade da comunidade, a criança ficou conhecida dos amigos da família como a “menina do portão”. Aquele bebê era eu. Em 2015, pouco antes de viajar à Austrália, tive a oportunidade de voltar naquele mesmo local, novamente, com minha mãe.

A pequena casa azul, de madeira, se foi. O portão também era outro, mas o pedaço de chão, onde desta vez pisamos juntas, era o mesmo. Foi um reencontro emocionante no portão da chegada. Aquele abraço, foi a chance de agradecer pela vida, pela dedicação incondicional, além do que consigo admitir, algumas vezes, quando ela ignora a si mesma em doação dos filhos. Também pelo carinho de ligar o forno do fogão pela manhã, para aquecer meu uniforme escolar, que era pendurado na porta. Ela tinha este zelo, de me vestir com uma roupa aquecida, ainda que a cidade nem fosse assim extremamente fria no inverno. Na volta da escola, servia o almoço, cuidava de tudo e saía para o trabalho. Da garagem de casa eu ficava olhando o ponto de ônibus, para acenar um até logo, todos os dias.

E quando ela partia, me apressava a desenhar no ar um coração feito de um cordão delicado de outros pequenos corações, escrevia o nome dela lá dentro, apanhava a arte feita de vento e guardava no meu próprio coração. Era onde a mantinha enquanto estava longe. Um dia minha avó me pegou neste ritual de proteção secreto. Fiquei meio envergonhada, mas não deixei de praticar. Acho que minha mãe nunca rabiscou um coração no ar, mas era de elaborar gestos sempre lembrados. Reservava parte do lanche fornecido na empresa para me trazer. Aqueles cachorros-quentes, que eu adorava comer frios, foram os melhores até hoje, temperados com o seu carinho.

Tanto tempo se passou desde aquele primeiro instante de vida, até o segundo encontro naquele portão. Lamento não termos foto. Está na memória e que sorte foi. Mesmo que hoje, algumas vezes, a nossa harmonia seja quebrada por algumas ideias diferentes, é um tipo de relação inabalável. E mesmo que uma conversa necessária seja difícil, também, necessariamente, termina num abraço de entendimento, pois estamos aprendendo, que não há culpa, que as mães não precisam saber todas as coisas, nem os filhos.

Também damos risadas por situações muito bobas, como ela dizendo que o pai não estava conseguindo ouvir porque estava sem os óculos, ao comentar que era porque ele já tinha MAEretirado o aparelho auditivo. Ou ainda, quando, no meio de uma conversa, meio distraída, indago: “e aquele pedaço de queijo?”. Ela: “que queijo”? Eu: “quem falou em queijo”? Em seguida, nos olhamos, e caímos na risada. Sei lá porque mencionei queijo, de repente, o melhor é que achamos hilário naquele momento. Somos ou pouco doidas? Talvez, e tudo bem, desde que a gente continue achando divertido pequenas bobagens.

Que neste dia especial, dedicado a lembrar a maternidade, o mais abundante para todas seja o que sempre elas tentam doar: amor sem fim. Que seja uma celebração com alegria, ainda que sem a chance de se encontrarem num mesmo portão, pois tem o amor a capacidade de transcender o espaço, o tempo, a morte e as dimensões.