La postNuma tarde dessas, descobri um pequeno mundo quase intocado pela velocidade das cidades, mas abundante de felicidade. Não foi necessário usar avião ou atravessar fronteiras porque era logo ali, há cerca de uma hora de casa. Na chegada, um portão de madeira rangeu ao se abrir, dando acesso à uma ruela estreita que serpenteou até o endereço da propriedade, que repousa na serra de Campo Alegre, em Santa Catarina. Estacionei na grama, ainda com sinais de ter sido queimada por uma geada recente, perto de uma pequena passarela sobre um riacho. Apenas a água gelada borbulhando quebrava o silêncio.

Logo, surge uma mulher, em trajes simples e confortáveis para proteger do frio. Junto dela corre um pequeno cão completamente branquinho. “Este é o Urso, adotamos para o meu filho. Temos muitos animais aqui, mas uma criança precisa de um animal de estimação”, disse, apresentando o filhote que saltitava em ingênua alegria. Sorridente, passou a explicar como a propriedade rural foi se transformando em pousada. O antigo paiol virou refeitório e tudo o que é servido lá é orgânico. Numa das casas, os móveis criam o mais completo estilo rústico. Na outra, ainda é preservada a identidade do que foi a casa da família. Exige muito trabalho cuidar de tudo, mas é um lugar que parece ignorar se há alguma mazela no planeta.

Mulher na praia (1)

Dias depois, quase no mesmo horário, paro numa praia para repousar os olhos em barcos de madeira que aguardam a próxima pescaria colorindo a areia branca em tons de azul, vermelho, branco, amarelo e laranja. Uma moradora local chega acompanhada de um cão grande e calmo e outro minúsculo, saltitante como o Urso. A senhora senta numa das canoas e observa tranquila os costões verdejantes e aquele mar calmo tão conhecido.

É preciso reconhecer a brevidade de cada instante

Duas mulheres, uma no campo e outra do litoral, que têm mais em comum do que acharem graça nas brincadeiras de seus cães. Ambas são donas de seus paraísos particulares de felicidade, ao renovarem o valor de suas paisagens cotidianas, sabendo apreciar a simplicidade do que possuem. Seria mais fácil manter a sensação de satisfação estando a casa perto do mar ou da montanha? Assim, o que diriam então aqueles que trocam o ar puro de pequenas comunidades pelo agito dos grandes centros?

Desbravar o desconhecido pode envolver uma promessa de embriaguez de euforia até que o incomum se desgaste e vire comum. Isto se dá quando evapora o reconhecimento da brevidade de cada instante. Por isto, o lugar onde você está, no momento chamado agora, é o que realmente merece ser aplaudido. A última vez que tomei a rua errada, decidi apenas seguir na direção de outra praia, onde me dei conta da sorte de estar num dos melhores pontos para assistir ao pôr do sol.

Todos somos capazes de construir paraísos particulares de felicidade, começando por estarmos dispostos a receber e vivenciar o que se apresenta diante de nós com gentileza e agradecimento.