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MEU CARO DOIS MIL E DEZESSEIS,

Não há mais pelo quê esperar. Tenho ensaiado essa conversa à moda antiga há alguns dias, mas esse tempo chamado “dezembro” foi se esvaindo rapidamente demais entre o tic e o tac do relógio. Faltam poucas horas para a tua despedida. Confesso que contive o impulso, ali, espiando pela quina da parede para ver quais seriam teus últimos desdobramentos, mas o fato é que esperamos tanto e agora você acabou.

O vento bateu, a cortina ainda voou de leve – já até consigo sentir a nova brisa entrando –, não há nada mais para se ver da tua janela. De todas as previsões econômicas, políticas, dos astros, dos signos ou dos orixás, como diria Chico Buarque; você foi o ano que surpreendeu ao subestimar todas as profecias. Foi além, ao âmago das discussões e das impossibilidades, da intolerância e da solidariedade, da repressão e da liberdade, da dor e também do amor. Você foi ao limite de todos os paradoxos.

E por esse motivo, é inevitável chorar um pouco nessa despedida. Na noite passada, quando encostei a cabeça no travesseiro, tive de desabafar por um momento. Chorei pela mulher, pela violência, pela falta de diálogo, pelo pobre, pelo negro, pela incompreensão, pela criança, pelas máscaras, pela indiferença, pelo idoso, pela fome, pelas imposições, pelo sobrevivente, por aqueles que estão longe de casa contra a vontade. Por aqueles que não têm casa. Pelo ser humano, pela sociedade. Chorei por mim e por ti, porque pertencemos todos à mesma tribo, e, involuntariamente, quando algo não vai tão bem, há uma força invisível que faz com que todos sintam o embate.

Segundo a ONU, 125 milhões de pessoas viviam em situação de crise humanitária no ano passado (Foto: Tobin Jones)

Você deve ter sentido o mesmo ao longo de todos os seus dias, não é? Nem sempre importa se o índice de desemprego caiu, se a Bolsa segue em alta, se o dólar baixou ou se a expectativa para 2017 é ou não de reestruturação econômica… quando o coração de quem está ao lado segue machucado, incompreendido, calado ou renegado porque vivemos uma das maiores crises humanas da história. E não me refiro apenas à guerra, ao refugiado, aos atentados terroristas, aquilo que está distante, amedrontando as pessoas “sem rosto” e que cuja expectativa de vida diminui 24 anos diante da condição desumana em que sobrevivem. Você não leu errado, pois segundo a Organização das Nações Unidas, comunidades em situação de risco tendem a viver duas décadas a menos que a média global.

Há uma crise oculta acontecendo dentro de nós.

Hoje, em especial, estamos tratando da crise do “ser e se sentir” cem porcento humano, do conflito interno que desperta as batalhas mais silenciosas de dor, mágoa, ódio, negação, inveja, medo e falta de perspectiva. Essa lista é imensa e você conhece bem, porque esses sentimentos dançaram livremente por entre os seus 365 dias do calendário. Li na Revista IstoÉ uma consideração do psiquiatra e escritor Augusto Cury sobre os dias atuais:

“A sociedade moderna tornou-se um manicômio global. Estamos vivendo num grande hospital psiquiátrico. Um exemplo dessa loucura é que metade das crianças nunca conversou com os pais sobre quem elas são, seus conflitos, como a angústia e o bullying. Raros são os pais que sabem se seu filho se sente diminuído entre seus pares. Um desastre sem precedentes. Sete em cada dez jovens têm sintomas de insegurança e baixa autoestima. Vivemos a era do pesadelo, não dos sonhos.”

Mas será que esses dias cinzentos podem se cobrir de luz?

Cury acredita que sim, e eu também. Teremos uma vida com mais qualidade e felicidade quando gerenciarmos e observarmos nossos sentimentos, soubermos duvidar com consistência, criticar com gentileza, determinar e filtrar estímulos negativos e estressantes, não nos tornarmos escravos da tecnologia. E, importante (!), quando conseguirmos diminuir o ritmo de nossos passos. 

Sem julgamentos, mas, no quesito fugacidade, você foi o ano que ganhou todos os louros com louvor e, quem não estava preparado emocionalmente para contornar as suas nuances e intempéries, sofreu mais. Torceu o nariz e chorou quem foi inflexível, quem não observou e não esteve atento, quem não dialogou e não ouviu o outro, quem não nutriu a alma, preparou a mente e nem esculpiu a ponta da lança para enfraquecer a infelicidade.

Tão perto, mas tão longe.

Nunca estivemos tão conectados e perto de pessoas geograficamente bem distantes. No entanto, nunca nos sentimos tão tristes, ansiosos e sozinhos como agora, ao passo que fizemos um esforço descomunal para mostrar o contrário, em especial, nas redes sociais.

“A impressão que temos é que a humanidade pede socorro. Nunca antes tantas pessoas se sentiram tão sozinhas e carentes de afeto e amizade. Surgem novas doenças e novas fobias em escala mundial, como a angústia e a depressão, além de novas formas de transtornos compulsivos. A taxa mundial de suicídio aumentou consideravelmente nos últimos cinquenta anos, já sendo considerado um problema de saúde pública em muitos países”, do livro O profissional do futuro: uma visão empreendedora (Roberto Souza de Morais).

De acordo com um estudo divulgado pela eMarketer, empresa especializada em pesquisas do mercado digital, o Brasil é o país que mais tem usuários ativos em redes sociais em toda América Latina. Os dados mostram que, em 2014, eram 78,1 milhões de usuários mensais ativos. Em 2015, o número subiu para 86,5 milhões e até a metade de 2016 o índice já alcançava 93,2 milhões.

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Criamos cada vez mais perfis, mas perdemos a identidade. Participamos de grupos, mas não conhecemos o vizinho. Expomos nossas vidas, mas encarceramos o coração. E aí está a ferida que não cicatriza, pelo contrário, aumenta quando não é cuidada. A ilusão daquilo que imaginamos longe e do que enxergamos perto. A crise humana parece distante quando comentamos no táxi, no ônibus, na fila do banco, com o colega de trabalho ou no elevador só para passar o tempo, mas ela está bem ali, no escuro, esperando a gente deitar a cabeça no travesseiro e conter o choro. Ela está dentro de nós e precisamos chorar, colocar para fora, concorda? A lágrima é a expressão daquilo que relutamos, por isso, contemos. É a admissão perante o mundo do que só existe como uma pulga imaginária atrás da orelha.

Você pode me julgar, 2016…

Nascemos, choramos. Crescemos, cessamos. E a explicação é simples: o choro aparenta fraqueza e, com o tempo, ele não tem mais espaço nos nossos dias secos. Nem por motivo de tristeza, nem de felicidade. Chorar de alegria é considerado constrangedor, e de dor, fracasso. Mas, esse analgésico natural ajuda a dissipar essa tensão, a fechar um ciclo e a seguir em frente.

Precisamos reciclar a água da fonte de vez em quando, para que a água pura corra novamente.

Se sentir vontade, chore também, querido Ano Velho. Pelos seus e pelos nossos erros, pela intolerância, pela corrupção, pelas escolhas equivocadas, pelo preconceito, pela mágoa conservada, pelo desrespeito, pela fraqueza que não deixamos transparecer, pela resposta pronta e arrependida, pela mentira “inocente” que ficou escondida na gaveta, pelo perdão que não foi capaz de conceder, pelos momentos felizes que não desabrocharam.

Chore, mas liberte-se e sorria com ânimo e coragem. Pela solidariedade, pelas conquistas, pela compaixão, pelas vidas preservadas, pelo olhar da criança que aposta no futuro, pela oportunidade do recomeço, pelo bem, pela gentileza e pelo amor que há em nós.

Se você foi o vilão ou o mocinho, quem saberá?

2016 foi reflexo de cada um de nós. Então, antes de abrir a janela, pular as sete ondas ou vestir a cor da sorte, nos despediremos de você com sincera gratidão por nos tornar mais fortes, mais vivos, melhores para a próxima etapa. Decidiremos que tipo de 2017 queremos ter, porque é de nós – e por nós – que o próximo ano também será feito. Cabe tão somente definirmos com o que vamos preencher a lacuna dos seus dias. Sugestões? Amor, família, amigos, trabalho gratificante, empatia, passos pacientes, mente atenta, gentilezas despretensiosas, relacionamentos saudáveis e positivos, coração aberto, e tudo aquilo que fizer sua alma transbordar de felicidade.

“Aquilo que não me mata, só me fortalece.” (Friedrich Nietzsche)

Em frente, que a gente vai recuperar o ritmo da respiração e o compasso da vida no amanhecer, pois há um 2017 inteiro para ser desdobrado, apreciado, vivido, celebrado. Há um ano novo completo para mudar aquilo que despertou todo e qualquer desabafo nos últimos momentos seus, meu caro DOIS MIL E DEZESSEIS.
Assinado por mim, por ti, por todos nós!