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Ainda era uma menina de tranças quando me encantei pela estratégia de uma outra menina, chamada Poliana, para encontrar algum aspecto bom em qualquer situação. Mesmo ficando órfã e passando a depender de uma tia severa, ela praticava um jogo que tinha aprendido com seu pai, o “jogo do contente”.

Poliana é a personagem principal de um clássico da literatura infantojuvenil, publicado em 1913, por Eleanor H. Porter. Por conta deste jogo, ela se tornou a personificação do otimismo muito antes de se falar em Psicologia Positiva, movimento que surgiu oficialmente nos Estados Unidos, entre 1997 e 1998, a partir da iniciativa do psicólogo e professor Martin Seligman.

O que ela fazia era o que hoje podemos chamar de ressignificação de um fato, quando buscamos uma nova interpretação, no objetivo de visualizar calmaria, por exemplo, mesmo quando um trovão se aproxima. Não é questão de ignorar os problemas, a existência da tristeza, ou impedir que ela ocorra com toda sua insistência, mas de transmutar o ruim em algo bom e até rir de acontecimentos difíceis.

ricardoDe sua aventura pela Índia, um amigo, Ricardo Pereira, contou muitas histórias. Uma delas envolveu uma longa viagem de ônibus, que começou mal porque ficou perdido antes de encontrar o ponto de embarque. Depois, quando ainda se recuperava do susto da correria, numa das paradas, chegou outro passageiro gesticulando para avisar que iria dividir a cabine onde tinha de passar a noite. Sem dormir direito, sacolejou por horas a fio, mas ainda teria de esperar muito para chegar ao destino. Numa blitz, a viagem foi interrompida porque a polícia flagrou o motorista bêbado. A narrativa desta saga de contratempos poderia ser finalizada com um “era só o que me faltava”, mas ele encerrou com um calmo “namastê”, cumprimento que tem entre os significados “o ser que habita meu coração saúde o ser que habita o seu coração”. Dei risada.

O problema ganhou este sentido hilário porque ele conseguiu encarar desta forma. Funciona. O “jogo do contente” ajuda a rir dos meus próprios erros, e até de algo que já me fez gastar um bom estoque de lágrimas. Exige determinação até virar um hábito, caso queira o contentamento florescendo em todas as estações.

Por que exercitar o contentamento

Porque a felicidade requer consciência e a infelicidade é oportunista. Ainda à plena luz da alegria, a tristeza estará sempre espreitando maliciosa. Aguarda até que você canse de estar feliz para sucumbir a um dia ruim.

Os dias não voltam

Tinha uma época que tinha pânico de segundas-feiras. Era a síndrome do domingo à noite apertando o estômago ao olhar a semana que parecia imensa. Ao ver cada novo dia como um tempo precioso e impossível de ser recuperado, a nova semana passou a ser oportunidade de realizar e agora passa voando. Intercale seus dias com o reconhecimento de pequenos prazeres, seja um momento ao sol, tocar uma árvore, deitar na cama quentinha, apreciar um novo filme, um livro, o sabor de uma receita nova ou antiga, e muitos abraços.

Celebrar mais e se preocupar menos

Escolher a preocupação antecipada é uma boa maneira de acabar com o bem-estar. Em muitas ocasiões, acabamos de conquistar algo memorável e já estamos preocupados com a nova meta. Não deixe que a ansiedade lhe roube o merecimento de celebrar, seja a cada pequeno degrau da subida, seja no cotidiano passo da caminhada.

Na infância parecia mais fácil

Quando acompanhava meu pai ao mercado, recordo que voltava segurando como um tesouro a bolsinha plástica de balas de banana que ele me dava. Porque parecia tão fácil uma satisfação imensa com algo tão pequeno? Talvez pela pureza do que as mãos recebiam. Não envolvia nenhum tipo de comparação com outras mais sofisticadas, o que provocaria o desejo de que fossem de morango e chocolate. Já na seriedade da vida adulta impera uma lista de exigências, como se ficar contente por pouco seja alguma falta de critério inteligente.

E se der errado?

O estado de contentamento começa com um “sim, eu quero, eu mereço”. Dias de dificuldades não fazem parte de algum tipo de castigo, mas de um reconhecimento a novas oportunidades de se alegrar. Alguns preferem não demonstrar alegria com medo do olho gordo, da desaprovação dos que apostam que algo vai dar errado a qualquer momento. Não se poupe de todo o contentamento que pode sentir com medo de tropeçar, nem tenha vergonha de estar feliz para não ofender quem está triste. Abra espaço para acolher e ampliar esta vibração. Se a tristeza tentar invadir, observe, escolha de novo ver de outro modo. Persista pela liberdade do seu contentamento.

Namastê!