banners-fvl-paraiso-850

Por Ariel Ganassim,
texto gentilmente enviado para a área de Colunistas


Diante de uma doença, a diferença do outro se faz sentida, novas distâncias são criadas e nos casos mais tristes, a melhor perspectiva passa a ser a morte. É natural experimentar um sentimento de rejeição quanto a si mesmo. Até chegar à aceitação, o percurso é longo e inclui negação, raiva, barganha e depressão.

Tem aqueles que se isolam em quartos escuros. Outros procuram ajuda em grupos de apoio. Existe um jeito certo de lidar com um diagnóstico doloroso? Os mais otimistas talvez já estejam convencidos “há males que vêm para bem”. Mas e quando o mal vem para o mal mesmo, quando não há nada além de alguns poucos meses de vida ou de anos pela frente vegetando?

Dizer que a vida precisa ser amada conforme ela se apresenta é muito fácil… fazer isso é um exercício frustrante. Vivemos em uma cultura que valoriza demais a saúde. Quantos protagonistas deficientes, moribundos, patológicos e etc. existem no cinema? Dá para contar nos dedos aqueles que nos apresentam algum sentido profundo para ajudar a enfrentar as tragédias.

Mas é possível sim extrair beleza de pequenas coisas, converter a dor em inspiração, aprender um dia após o outro com as limitações surgidas pelo meio do caminho e assim, conservar apreço próprio ao adoecer.

A experiência humana como uma construção pessoal

O primeiro passo é não aceitar os estigmas. Abrir os olhos e descobrir por conta própria o significado de cada sintoma para si e para o mundo. Outras pessoas tiveram experiências semelhantes, mas não iguais. Isso está longe de ignorar cuidados médicos. Pelo contrário, diz respeito apenas a compreender que a doença faz parte do eu, de um eu estimado. O que ainda pode ser divertido? Onde se inspira a coragem? Quais formas de gratificação passaram a existir?

Algumas pessoas, que talvez nem possam ler isso, em estados de consciência diferentes, se despertassem agora, talvez enfrentassem primeiro um profundo descontentamento por tudo o que perderam. Pode ser que a falta de lembranças de qualquer sonho reforçasse o sentimento de tempo perdido, mas elas sonharam, viveram toda a sorte de experiências emocionais. A vida nunca é em vão.

A busca por motivos pode ser banal

Por acaso, descobrir que um assassinato, por exemplo, aconteceu por motivos passionais vai trazer alguém de volta? Hoje em dia, a maioria das doenças possui uma causa bem definida, ainda que não tenha cura. É importante investigar cientificamente todas as enfermidades. Mas, do ponto de vista pessoal, como especular castigos divinos vai ajudar? A culpabilização precisa ser superada para empreender qualquer amadurecimento.

O desafio das doenças é desarticular a ideia de que pessoas saudáveis são melhores ou mais livres. Isso está muito associado à concepção judaico-cristã de perfeição. Mas, se somos à imagem e semelhança de um ser perfeito, então possuímos perfeição em cada parte que padece em nós. Não convém confrontar concepções religiosas, porque no fim das contas, também pode ser uma coisa importante para quem adoece.

A delicada importância da fé

Quem acredita em forças superiores, reage com mais conformismo à experiência proporcionada pela doença, como a única forma possível de existir, sem a qual provavelmente a vida já teria se extinguido, parecida a uma segunda chance no mundo, sob a perspectiva da necessidade de evolução espiritual.

Ainda assim, como ensina o “monge sem nome” em Bulletproof Monk, “água pura demais não tem peixe”. Quando a fé exige de nós mais sofrimento? É preciso tomar cuidado com a demonização das pessoas e se afastar de falsos santos. Eles podem tirar o que existe de melhor da nossa essência com promessas mentirosas. A religião precisa ser uma experiência libertadora.

A ideia radical de amar um eu adoecido

“Por trás de todo ódio está um grande amor.” Soa familiar? O modo de ser de quem adoece é alterado, suas expectativas, realizações e tudo o mais. Nada mais natural que repudiar a doença e negar qualquer outro sentimento. Mas ao nascer um novo eu, ele precisa ser amado e isso só vai ser possível se incluir nele seus males. Um jeito bom de encarar as coisas é como se fosse começar uma viagem, sem data para voltar. Existem duas opções, ficar emburrado todo o tempo longe de casa ou se atentar a cada desdobramento pelo caminho, em aprendizados.

Quem volta de viagens assim, costuma amar aonde foram quase tanto quanto retornar, porque se tornaram pessoas melhores. Mas vale lembrar que se tiver uma passagem apenas de ida, a experiência pode ser igualmente fortalecedora. Não existe um fim, apenas um caminho.

Doenças não são coisas boas

Durante o sofrimento, ninguém vai morrer de amores ao se perceber doente. Esse é o princípio de toda relação. De qualquer jeito, existirão momentos em que seremos capazes de olhar para o outro e de explicar o sentido da vida. Quem puder dar seu testemunho, dê, como um gesto político e consciente do que significa enfrentar os obstáculos de peito aberto, de se sujeitar ao destino com mais espírito que dor.


Quer publicar seu texto no portal Feliz Vida Livre? Clique aqui e saiba como.